domingo, 22 de abril de 2012

Peito aberto, coração fechado


É meio estranho isso. Ter tanta coisa para falar, não saber como. É como se eu não pudesse nem tentar me comunicar, porque você fala uma língua estrangeira. Nós não estamos dentro da mesma esfera, o que um tenta dizer é incompreensível ao outro. Não chegaremos a lugar algum. E apesar de tudo isso, permaneceremos sentados naquele degrau, sentido tudo passar. E vendo passar a chance de corrigir nossos erros. Não tem jeito. Eu abandonei aquela minha vida nômade depois de me indignar com a situação que você me fez passar. Eu pensei que havia me dado um lugar para pertencer ao seu mundo. E empacotei tudo, coração, lembranças, esperanças e amores, pus na mala do carro e dirigi rapidamente, sem nem sequer olhar o retrovisor, até lá. Acomodei-me com o espaço que parecia pequeno. Considerei-o aconchegante. Era apenas o necessário. E eu aprecio aquilo que não é exagerado, aquilo que é simples. De repente, ouço a porta bater e descubro que você designou o mesmo espaço para outros, e fez-me dividir com eles o que eu apreciava e considerava meu. Cansei-me dos olhares sem-graça que trocava com meus vizinhos e empacotei novamente meus pertences, dessa vez, levei comigo um pouco menos de dignidade, de paciência, compaixão, compensando maliciosamente, surrupiei um pouco mais de amor próprio, auto-preservação e sensatez. Saí de lá desejando ter o que nunca tive na vida. Um lugar meu, só meu. Algo que estivesse minimamente preparado para minhas necessidades especiais, um espaço onde eu me encontrasse mesmo quando tivesse perdido tudo que considero meu. Foi uma longa jornada até encontrar a oferta que preenchesse meus requisitos. Mas consegui e, depois de cortar despesas aqui e ali, dei o lance final e arrematei o que hoje acho que é meu para sempre, contanto que continue pagando devidamente os tributos e taxas, que não são nenhuma grande soma. Na verdade, sou feliz por ser cobrada com este fim. De tudo que deixei para trás ao tornar-me sedentária, sinto falta de apenas um dos benefícios nômades. Costumava gostar da sensação de não ser mas um estorvo na casa onde me hospedava, gostava de ir embora e ver o alívio que algumas vezes tomava conta dos rostos que me acenavam um adeus insosso. E agora, uma dor cresce junto com minhas raízes, um caso particular. Um risco que se corre ao mudar-se tanto de endereço. Deixei uma janela aberta no último lugar onde me instalei, e um coração de cristal, frágil, preso na janela como um prisma, ficou a balançar. Agora vem uma grande tempestade. Foi-me entregue a incumbência de ir resgatá-lo. E eu continuo recusando a tarefa, por medo da nostalgia que o ambiente me causará. Ainda no lugar onde estou existe outro coração, este indefeso e sofrido que me responsabilizei por cuidar. E no meio disso tudo, preso a uma fina corda que o mantem sob tensão constante, o meu coração empacotado é um pêndulo balançando, ignornado os perigos do mundo lá fora.


Isabela Moraes
13/04/2011

Afinal de contas dei meu coração
E você pôs na estante
Como um troféu
No meio da bugiganga
Você me deixou de tanga
Ai de mim que sou romântica! 

Kiss baby, kiss me baby, kiss me
Pena que você não me kiss
Não me suicidei por um triz
Ai de mim que sou assim!

Mutante - Rita Lee

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